sábado, 29 de maio de 2010

Um não-sei-quê de insanidade

Não se dê a quem não quer. Nada merece ser de quem não vê.
O que é concebido tem essência, por si só, tem recheio, é digno. Tudo o que existe merece amor. Qualquer forma de amor, desde que preserve o interesse, que o amor é vigília, curiosidade atenta.
Amo os sons, por exemplo... Adoro-os pequeninos e curtos, baixinhos.
Disseram-me que o meu pestanejar 'fazia barulho'- ri-me... A que distância podemos ouvir o pestanejar de alguém? Quanto tempo levariamos para identificar um pestanejar? Isto teve sabor de perda, de quem já se tinha perdido. Eu soube que sim.
Também gosto mesmo muito do som dos choques, das colisões. O baque! Tem efeito, tem alma, propaga-se, altera. Ninguém é igual depois do embate.
As cores não têm sons...e nem imaginam que os sons têm-nas a elas, a todas elas.
Alguém ensinou as sombras a fazer sons também. Perdem-se pela Terra, arrastam-se por ela como quem acaricia com o corpo, como quem contamina com todo o toque possível. Mas são capazes de se erguer e fazem-no sempre por corpos alheios, em cada milímetro limpo de luz, radiantes em nada até então. Sobem pelos ombros, beijam o pescoço, depois o lóbulo da orelha, cobrem rostos! ...Roubam toda a noção, num trato de vertigem, de engano, de promessa, de um não-sei-quê de insanidade de quem só tem um tempo, aquele tempo. Coleccionam noções, convicções. Levam as ideias a sério que elas mesmas proporcionam, para que se entranhem na terra (diz-se que é de lá que vêm todas as febres da carne). Arrastam as sensações -ficam guardadas para encontros seguintes- só podemos espreitá-las cada vez que nos tomam e cada vez que nos abandonam para tomar alguém. Sim, nunca nos esqueçamos que também somos donos de uma! Também podemos e sabemos chegar e partir, teremos sempre uma sombra a anunciar-nos com um não-sei-quê de "vais querer que eu fique"...
As sombras são surdas. Não têm nada para ouvir de nós. Mas não nos atravessam, para que possam assistir-nos cada vez que nos dilatam a íris e atrasam a respiração.
Somos um amontoado de momentos mal recordados - continuamente desejados, porque nos falha à memória como era estar no momento da qual nunca conseguimos realmente sair - " para repetir, não é?" - rimo-nos.
Não se dê a quem não quer. Só porque ser dá trabalho, custa. Custa acreditar que cada milímetro de pele se arrepiou em vão, custa não recordar fielmente o cheiro por detrás do lóbulo da orelha, custa aceitar no paladar o sal roubado nessas viagens por silhuetas sem nome, custa eleger caminhos.
Custa arrendar metade do cérebro - chove por cima das minhas vontades.

Yolanda Tati

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Há algo entre mim e as mãos que bate certo

Isolada de oscilações, assisto-me serena. Cansada, é verdade. Contudo, já me acostumei a esta marca dos dias, este pesar de pálpebras, arrastar de palavras. Ganhei, algures, o hábito da dislexia; chamo-lhe "hábito", só por ser algo estúpido, como todos os hábitos que sobrevivem ao meu jeito de ser, bagunçados algures em mim.
Não escondo os defeitos, apenas receios e fraquezas - finjamos, por agora, que defeitos e fraquezas se dissociam claramente: que o egoísmo não é causador de perda, nem o maqueavelismo de enfraquecimento, por exemplo. Os defeitos são meus, caramba! Não mos tirem, pois quero ser eu a perdê-los, a deixar que sigam a sua vida, enquanto vou descobrindo novos caprichos.
Hoje fiz o caminho para casa a cantar. Fiz. Uma nota por cada ruga, por cada prega na carne- "contem-me as vossas histórias...".
Estou cansada, mas feliz. Os dias correm bem. O espelho está vazio. Cheio de mim, é certo. Mas vazio do outro lado, do lado que dá lugar aos olhos sem rosto, às mãos sem braços. Tantas vezes o encontrei, de manhã, por detrás do espelho, não a suplicar - porque ele não suplica-, mas sugerindo que o pusesse nas rotas do dia que rompera, fitando-me de perto, como se para ele me vestisse. De olhos como aqueles, de mãos grandes, como aquelas. Há algo entre mim e as mãos que bate certo.
Os caminhos ontem foram outros, percorri-o. Foi. Andei por ele em passo ritmado - nada de melodramas, sei que me sabe firme -, com leveza soprada na face, de segurança trancada nas mãos que se fecharam sobre si, sobre nada, sobre o vazio do que não fomos, sobre a analepse da história que não temos para contar. Ó, sistema das não-coisas!... Até o vento que me passa pelos dedos chega a ser mais, sem sequer se ter dado a alguém.
Pode ser que um dia ganhe tempo e atenção para revisitar avenidas. Percorrê-lo, de novo.
A culpa é do tempo, força não falta. É sabido, que as forças nunca nos abandonam em tempos de prazer.
Ainda não tenho comigo todo o tempo do mundo. Também, se o tivesse, decerto, não o gastaria com esperas mudas. E o tempo não é para parar, tal como os nomes não são para calar, tal como os sabores não são para apressar, tal como o toque das tuas mãos não é para ti (não pode ser! não o conheces, não o percebes!).
Há algo entre mim e as mãos que bate certo; Só que estou cansada.


Yolanda Tati

domingo, 23 de maio de 2010

Febre azul

Guardada tenho uma série de objectos, histórias e tempos. Numa colectânea sem nome, sem descrição, sem data, sem autor. E prometo-me, um dia hei-de aprender a mostrar, a falar, a lembrar-me de tudo o que é importante saber e fazer em cada momento.
Faço-me tantas vezes esquecida de dizer o que sinto, de demonstrar o que sinto, de compreender o que sinto.
Faço-me desencontrada de tudo o que me soa a inútil ou hipócrita. Gosto de pensar que poupo (para coisas mais importantes) o tempo que levaria a tentar introduzir em mundos desconhecidos os conceitos que me preenchem, edificam.
Adoro as minhas ideias baralhadas, adoro o sentido que, por vezes, lhes falta. Mostro-as como me vêm à cabeça, com todos os rodeios que me enrolam como os piões com a qual nunca brinquei; com pausas inesperadas como no "macaquinho do chinês", com os palindromos que vêm sussurrar-me a insegurança e descansar-me com o prémio de todas as minhas ideias serem de trás para a frente aquilo que são de frente para trás. Este é um bom prémio: saber que ainda nada vi, ter como certa a incerteza que envolve tudo aquilo que tenho. Pois livre é aquilo em que acredito, é para sempre, por não ser de ninguém, não chega nem a ser mensurável.
Afastei-me de descrições, a problemática dos antónimos e antiteses conduziu sempre as minhas histórias a perturbantes desfechos. Prefiro escrever-me como me sinto, mais eu, esquecida de saber-me adoradora de todo o erro, odiadora de toda a ilusão, devoradora de toda a vontade.
Adivinho que, num destes dias, a muitos daqui, cruzar-me-ei com toda a segurança que recusei. Por agora, só preciso de cair, de me enganar, de perceber o quão suja é a base da essência de todos aqueles cujas vidas têm esbarrado na minha. Quero sujas as minhas mãos, de toda a putrefacção; fechados os meus olhos, de todo o ardor; seca a minha pele, de todo o impacto.
Espero que nunca se esqueça dela. Que este corpo nunca se esqueça desta febre azul que, tão simplesmente, dá vida à minha vida.
Guardada tenho uma série de objectos, histórias e tempos, por debaixo da minha pele, neste corpo faminto de ir e voltar, de ter e perder.

A todas as incertezas e perdas, indício de épocas felizes;
A toda a recusa de presente e vontade de não ser, na tentativa de ir sendo toda a entidade de vida e viver.

Yolanda Tati