quarta-feira, 26 de maio de 2010

Há algo entre mim e as mãos que bate certo

Isolada de oscilações, assisto-me serena. Cansada, é verdade. Contudo, já me acostumei a esta marca dos dias, este pesar de pálpebras, arrastar de palavras. Ganhei, algures, o hábito da dislexia; chamo-lhe "hábito", só por ser algo estúpido, como todos os hábitos que sobrevivem ao meu jeito de ser, bagunçados algures em mim.
Não escondo os defeitos, apenas receios e fraquezas - finjamos, por agora, que defeitos e fraquezas se dissociam claramente: que o egoísmo não é causador de perda, nem o maqueavelismo de enfraquecimento, por exemplo. Os defeitos são meus, caramba! Não mos tirem, pois quero ser eu a perdê-los, a deixar que sigam a sua vida, enquanto vou descobrindo novos caprichos.
Hoje fiz o caminho para casa a cantar. Fiz. Uma nota por cada ruga, por cada prega na carne- "contem-me as vossas histórias...".
Estou cansada, mas feliz. Os dias correm bem. O espelho está vazio. Cheio de mim, é certo. Mas vazio do outro lado, do lado que dá lugar aos olhos sem rosto, às mãos sem braços. Tantas vezes o encontrei, de manhã, por detrás do espelho, não a suplicar - porque ele não suplica-, mas sugerindo que o pusesse nas rotas do dia que rompera, fitando-me de perto, como se para ele me vestisse. De olhos como aqueles, de mãos grandes, como aquelas. Há algo entre mim e as mãos que bate certo.
Os caminhos ontem foram outros, percorri-o. Foi. Andei por ele em passo ritmado - nada de melodramas, sei que me sabe firme -, com leveza soprada na face, de segurança trancada nas mãos que se fecharam sobre si, sobre nada, sobre o vazio do que não fomos, sobre a analepse da história que não temos para contar. Ó, sistema das não-coisas!... Até o vento que me passa pelos dedos chega a ser mais, sem sequer se ter dado a alguém.
Pode ser que um dia ganhe tempo e atenção para revisitar avenidas. Percorrê-lo, de novo.
A culpa é do tempo, força não falta. É sabido, que as forças nunca nos abandonam em tempos de prazer.
Ainda não tenho comigo todo o tempo do mundo. Também, se o tivesse, decerto, não o gastaria com esperas mudas. E o tempo não é para parar, tal como os nomes não são para calar, tal como os sabores não são para apressar, tal como o toque das tuas mãos não é para ti (não pode ser! não o conheces, não o percebes!).
Há algo entre mim e as mãos que bate certo; Só que estou cansada.


Yolanda Tati

Sem comentários:

Enviar um comentário