Não se dê a quem não quer. Nada merece ser de quem não vê.
O que é concebido tem essência, por si só, tem recheio, é digno. Tudo o que existe merece amor. Qualquer forma de amor, desde que preserve o interesse, que o amor é vigília, curiosidade atenta.
Amo os sons, por exemplo... Adoro-os pequeninos e curtos, baixinhos.
Disseram-me que o meu pestanejar 'fazia barulho'- ri-me... A que distância podemos ouvir o pestanejar de alguém? Quanto tempo levariamos para identificar um pestanejar? Isto teve sabor de perda, de quem já se tinha perdido. Eu soube que sim.
Também gosto mesmo muito do som dos choques, das colisões. O baque! Tem efeito, tem alma, propaga-se, altera. Ninguém é igual depois do embate.
As cores não têm sons...e nem imaginam que os sons têm-nas a elas, a todas elas.
Alguém ensinou as sombras a fazer sons também. Perdem-se pela Terra, arrastam-se por ela como quem acaricia com o corpo, como quem contamina com todo o toque possível. Mas são capazes de se erguer e fazem-no sempre por corpos alheios, em cada milímetro limpo de luz, radiantes em nada até então. Sobem pelos ombros, beijam o pescoço, depois o lóbulo da orelha, cobrem rostos! ...Roubam toda a noção, num trato de vertigem, de engano, de promessa, de um não-sei-quê de insanidade de quem só tem um tempo, aquele tempo. Coleccionam noções, convicções. Levam as ideias a sério que elas mesmas proporcionam, para que se entranhem na terra (diz-se que é de lá que vêm todas as febres da carne). Arrastam as sensações -ficam guardadas para encontros seguintes- só podemos espreitá-las cada vez que nos tomam e cada vez que nos abandonam para tomar alguém. Sim, nunca nos esqueçamos que também somos donos de uma! Também podemos e sabemos chegar e partir, teremos sempre uma sombra a anunciar-nos com um não-sei-quê de "vais querer que eu fique"...
As sombras são surdas. Não têm nada para ouvir de nós. Mas não nos atravessam, para que possam assistir-nos cada vez que nos dilatam a íris e atrasam a respiração.
Somos um amontoado de momentos mal recordados - continuamente desejados, porque nos falha à memória como era estar no momento da qual nunca conseguimos realmente sair - " para repetir, não é?" - rimo-nos.
Não se dê a quem não quer. Só porque ser dá trabalho, custa. Custa acreditar que cada milímetro de pele se arrepiou em vão, custa não recordar fielmente o cheiro por detrás do lóbulo da orelha, custa aceitar no paladar o sal roubado nessas viagens por silhuetas sem nome, custa eleger caminhos.
Custa arrendar metade do cérebro - chove por cima das minhas vontades.
Yolanda Tati
sábado, 29 de maio de 2010
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super profundo, filosófico. Ambíguo, dificil de compreender, muitas emoções à mistura. Um texto fantástico sobre um "não-sei-quê" miscelâneo que vai no teu ser, e porque ser, custa. Custa o ser, o estar, o sentir...
ResponderEliminarAdorei: Somos um amontoado de recordações mal recordadas.
adorei o texto prima, uma maneira de escrever muito característica, receio não te puder acompanhar nessa tua escrita como fiz com o outro comentário.
Bjokas (um dia vais puder comentar um blog meu também...)